Lucy Silva/Portal Terra
Está sendo julgado na manhã desta sexta-feira, pela primeira vez, em Belém (PA), o pecuarista Regivaldo Pereira Galvão, conhecido como Taradão. Ele é acusado de ter encomendado a morte da missionária americana Dorothy Mae Stang, na localidade de Anapu, no sudoeste paraense, em fevereiro de 2005. O julgamento começou pouco depois das 8h.
Dorothy foi assassinada a tiros na área onde lutava em defesa da reforma agrária. Cinco são acusados de envolvimento no crime, sendo que quatro já foram condenados, o último condenado foi outro pecuarista Vitalmiro Bastos de Moura, que teve pena de 30 anos de reclusão, no dia 12 deste mês. Ele é apontado como cúmplice de Regivaldo no mando do crime.
Para o comitê Dorothy, entidade criada para dar continuidade à luta da missionária, o julgamento do pecuarista representa o fechamento de um ciclo. “É o poder mais alto da hierarquia que está indo a julgamento. Trabalhamos duro para que chegasse esse ponto do poder político e financeiro sentar no banco dos réus. Isso é uma vitória para nós”, avalia o coordenador da entidade, Dinaílson Benassully.
Ainda segundo Benassuly a intenção é provar que o pecuarista está ligado ao crime organizado e que Bida, condenado por participação no crime, era apenas um “laranja”. “Há vários crimes pesando contra o Regivaldo, não só esse, mas de grilagem de terras, envolvimento com desvios da Sudam. Muita coisa vai vir à tona agora que ele vai ser exposto pela primeira vez”, acredita.
O assistente de acusação e advogado da Comissão Pastoral da Terra, João Batista, diz que a acusação vai sustentar que Regivaldo foi o principal mandante do assassinato da religiosa e está focada em juntar aos autos provas consistentes tanto documentais como testemunhais que comprovem a sua tese. “Documentos novos vão surgir e testemunhas que não foram ouvidas ainda para ajudar no convencimento dos jurados”, conta.
Regivaldo Galvão era o proprietário da área onde havia também um acampamento de agricultores liderados pela missionária. O terreno foi vendido à Bida. Em seu julgamento, Vitalmiro Bastos de Moura disse que o Regivaldo havia prometido lhe devolver o dinheiro ‘dolarizado’ caso houvesse algum problema na área.
Bida disse ainda que Regivaldo era quem mais tinha interesse na morte da missionária, pois teria prejuízo se a terra fosse devolvida por problemas com os agricultores.
Para o advogado da CPT, as acusações de Bida à Regivaldo mostram claramente o envolvimento dos dois. “Isso foi mais um elemento para o conjunto probatório que a defesa vai sustentar, de que havia uma associação entre os odois em relação às terras do lote 55 da gleba Pacajá e isso contribuiu para o crime. Embora Bida tenha tentado negar ao júri, demonstrou claramente que é Regivaldo que tinha o controle das terras”, avalia.
A defesa do fazendeiro, representada pelo advogado Jânio Siqueira, porém, declarou à imprensa que vai sustentar a tese de negativa de co-autoria e que não há provas que liguem o pecuarista ao crime.
Por se tratar da primeira vez que o fazendeiro vai à júri, após cinco anos do crime, a sessão mobilizou várias entidades de defesa dos direitos humanos e movimentos sociais. Um grande acampamento foi montado na frente do Tribunal por mais de mil agricultores vindos de vários município do Estado, incluindo Anapu, para acompanhar o julgamento.
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