carlosartigo

Não acredito naquele jornalista bonzinho, simpático. Cuidado! Geralmente esse tipo de jornalista é subserviente. O jornalista militante, aquele jornalista da causa, da verdade, é um chato. Quanto mais chato melhor o jornalista.

Aprendi, logo no início da minha carreira, que uma das principais tarefas da imprensa é fiscalizar o poder público e denunciar o que tem de errado. Hoje, é fácil. As denúncias muitas vezes chegam prontas para os jornalistas, em forma de dossiês, fitas, listas, como um serviço de delivery. Antigamente era arriscado e difícil denunciar a corrupção dos podres poderes de sempre, hoje o desafio é outro. É não servir de instrumento a interesses político-partidários, sejam eles do governo ou da oposição.

Ser jornalista: é confiar desconfiando, é ter um pé sempre atrás e a pulga atrás da orelha. É abrir caminho sem pedir permissão. É nunca esmorecer diante do primeiro não, nem do segundo, nem do terceiro, nem de nenhum. É ter o dom da palavra e o dom do silêncio. É procurar onde ninguém pensou, é pensar no que ninguém procurou. É transformar uma simples caneta em uma arma ‘mortífera’. Ser jornalista não é desconhecer o perigo, é fazer dele um componente a mais para alcançar o objetivo.

Jornalismo é profissão perigo. É coisa de doido. É olhar para a linha tênue entre o bom senso e a loucura e ultrapassar os limites sem pestanejar. É ser petulante, é ser agressivo, respeitando seus princípios acima de tudo até mesmo da profissão. É fazer das tripas coração pra conseguir uma mísera declaraçãozinha. É apurar, pesquisar, confrontar, cruzar dados. É perseguir as respostas implacavelmente. É lidar com pressão, pressão de todos os lados. É matar um leão por dia, e ainda sair ileso. É ter o ‘sexto sentido’ mais apurado do que os outros sentidos, e saber que é ele quem vai te tirar das enrascadas.

A internet veio oxigenar a imprensa, ou será a informação? A grande revolução que a internet está provocando hoje nas relações humanas, a maior desde que Guttemberg inventou a imprensa, faz uns 500 anos. Quase 60 milhões de brasileiros já estão ligados à grande rede, tornando-se ao mesmo tempo emissores e receptores de informação, acabando com esta história de formadores de opinião. Nós, repórteres, somos contadores de histórias da vida real, o meio usado para isso, a tal da plataforma, pouco importa.

O jornalista continua como principal defensor da liberdade de expressão e analista dos acontecimentos diários. Vale a pena ser jornalista, mesmo remando contra a maré, mesmo dando murro em ponta de faca.

Ser jornalista é ir além da profissão…

Jornalista não fala – informa
Não passeia – viaja a trabalho;
Não conversa – entrevista;
Não faz lanche – almoça em horário incomum;
Não é chato – é crítico;
Não tem olheiras – tem marcas de guerra;
Não se confunde – perde a pauta;
Não esquece de assinar – é anônimo;
Não se acha – ele já é reconhecido;
Não influencia – forma opinião;
Não conta história – reconstrói;
Não omite fatos – edita-os;
Não pensa em trabalho – vive o trabalho;
Não vai à festas – faz cobertura;
Não acha – tem opinião;
Não fofoca – transmite informações inúteis;
Não pára – pausa;
Não mente – equivoca-se;
Não chora – se emociona;
Não some – trabalha em off;
Não lê – busca informação;
Não traz novidade – dá furo de reportagem;
Não tem problema – tem situação;
Não tem muitos amigos – tem muitos contatos;
Não briga – debate;
Não usa carro – mas sim veículo;
Não é esquecido – é eternizado pela crítica;
Jornalista não morre – coloca um ponto final!

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